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O educador social e seu papel na formação dos vínculos afetivos dos educandos

Maura Secco  

Não dá para discutirmos apenas teoricamente os vínculos afetivos sem fazermos voos rasantes sobre a história de nossas vinculações; seja profissional, afetiva ou social. Em nossa experiência profissional na área social, esta questão está muito presente e forte. Temos que aprender a lidar com ela para garantia de nossa saúde emocional e qualidade de trabalho. Por isso, são interessantes e necessárias pontes entre esse tema, o desempenho do nosso papel de educador e as emoções a que somos submetidos.

Não podemos negar as dificuldades às quais nos remete o trabalho, junto ao drama de quem vive o abandono. Sabemos que as histórias de perdas, faltas e carências deixam marcas profundas, as quais interferem na capacidade do indivíduo em formar e manter vínculos afetivos saudáveis. A impossibilidade de chorar a dor sentida, de expressar a raiva e a revolta contra frustrações vividas se somam a essas dificuldades.

No entanto, é nessa brecha que acontece o trabalho do educador, ou seja, na possibilidade do educando expressar suas dores e raivas. Assim acontecem as aproximações, cheias de conteúdo emocional. O educador acaba se tornando o depositário de emoções; evitar isso é impossível, mas saber usar desse momento para ajudar o educando a construir uma nova referência afetiva é a delicadeza desse trabalho. É importante que o educador possa reconhecer esse seu papel; de oferecer um lugar de continência e referência para a criança e o adolescente, para construírem um novo modelo de funcionamento estimulando-os a viverem seus conflitos, oferecendo-lhes oportunidades de tentar superá-los.

É no reconhecimento desse papel que podemos tolerar a angústia proveniente do contato cotidiano com tantas faltas e com a impotência de nosso trabalho. E é esse o caminho para entrarmos também em contato com o sentimento onipotente de todos nós cuidadores, de querermos preencher as frustrações vivenciadas por nossos educandos e familiares.

Sabemos também, que todos nós vivenciamos perdas afetuosas e conflitos nas nossas histórias de diferentes formas, e que é possível reestruturar nossas vidas a partir de novos vínculos. Não obstante, a maioria da clientela com a qual trabalhamos viveu uma situação de perda, no seu limite, está muito perto de um caos de emoções e/ou até mesmo dentro dele. E conviver diariamente com esses conflitos também nos deixa frágeis, pois voltamos a nos aproximar das perdas não elaboradas de nossa história.

Todos nós, educadores e educandos, temos basicamente as mesmas necessidades. Nascemos dispostos a nos ligar, apegar a alguém que nos cuide, dê carinho e atenção. É a partir dessa nossa

disposição que nos ligamos a quem primeiro dedica esses cuidados. Bowlby chama de figura de apego essa pessoa a quem nos ligamos que fornece uma base segura a partir da qual poderemos atuar. Todos nós precisamos de uma figura de ligação em todas as fases de nossas vidas, e a cada momento ela terá uma representação e um significado diferente. As pessoas são mais felizes e se saem bem em sua vida afetiva e profissional quando tem a segurança de existirem pessoas que podem ajudá-las em suas dificuldades. Devido aos valores culturais a importância dessa figura é esquecida e denegrida.

Todos nós nascemos com inclinação para nos aproximarmos dos estímulos que são mais conhecidos e de evitar os que são estranhos. Dessa aproximação nascem os vínculos afetivos. O vínculo mais comum é o que acontece entre os pais ou substitutos e filhos. É o primeiro e mais persistente e se mantém até a vida adulta.

É através dessa primeira relação, primeiro apego, que o bebê irá desenvolver sentimentos de autoconfiança, confiança básica nas pessoas e sua autonomia.

Os vínculos estabelecidos entre a criança e os pais ou substitutos vão servir de base para a formação e manutenção dos vínculos afetivos futuros. Para isso se confirmar, é necessário o respeito e o reconhecimento pelos pais do desejo e necessidade que a criança tem de uma base segura; isso implica em terem uma compreensão intuitiva da ligação afetiva da criança e que tenham disposição para essa ligação, pois só assim saberão quais os limites, qual o momento adequado de estar presente ou afastado.

Dentro desta visão é importante que os pais ou substitutos reconheçam que a raiva expressada pela criança se liga à frustração de seu desejo de ser amada e cuidada, e que a ansiedade está refletindo a incerteza quanto à disponibilidade dos pais. Reconhecer não significa impedir a criança de ter frustrações, e nem tampouco que os pais não podem se afastar dos filhos para não causar-lhes ansiedade. Frustrações e ansiedades fazem parte de nossa vida, a criança precisa de continência e limites para aprender a lidar com esses sentimentos.

Embora a maioria das crianças e adolescentes com a qual trabalhamos estão senão totalmente, parcialmente com os vínculos familiares rompidos. Como todos nós, nasceram de um pai e de uma mãe, e no começo de suas vidas vivenciaram emoções com os pais biológicos ou com seus substitutos (parentes ou instituição) cujo papel desempenhado foi o de formadores dos vínculos afetivos.

Bowlby defende que a criança poderá desenvolver três padrões de apego, os quais estarão desenvolvidos até o primeiro ano de vida do bebê: apego seguro, apego ansioso-ambivalente e apego ansioso-evitador. No atendimento junto aos educandos podemos observar a manifestação desses comportamentos, que reflete sua história familiar. O educando com apego seguro demonstra segurança na relação com o educador e o busca como fonte de apoio. O educando com apego ansioso-ambivalente não sente segurança na relação e

flutua entre proximidade e afastamento do educador, não se sente confortável, demonstra raiva e rejeição. O educando com apego ansioso-evitador recusa contato com o educador, dá impressão de independência, frieza e falta de apego.

É na repetição desse comportamento vivenciado na primeira infância que a criança e o adolescente pedem ajuda. O vínculo afetivo vai se transformando a vida toda, de acordo com o desenvolvimento de cada indivíduo e sua história. O vínculo do adulto é uma evolução dos vínculos infantis. Apresentam características emocionais parecidas com os vínculos infantis, ex. sentimentos fortes na ausência da figura de apego, desejo de estar próxima a pessoa amada. É a generalização da primeira experiência, onde outras figuras são eleitas para substituir à primeira.

O vínculo é um laço relativamente duradouro no qual o parceiro é importante como indivíduo único, não substituível por nenhum outro. No entanto circulamos dentro de uma rede sociométrica, nos aproximamos e nos afastamos das pessoas a partir de escolhas que são orientadas por necessidades diferentes e que serão providas por diferentes pessoas que compõem nossa história. Dentro deste universo existem: relações amorosas, relações de companheirismo, relações onde cuidamos do outro, relações que propiciam sentimentos de competência, relações que propiciam sentimentos de aliança, relações que sabemos que podemos contar, etc.

O papel do pai ou responsável é essencialmente de cuidador e do filho aquele que é cuidado. Para ser cuidador o indivíduo precisa ter sido muito bem cuidado. A vivência em família vai propiciar à criança a construção de diferentes relacionamentos pessoais. No desempenho de diferentes papéis ela treina e desenvolve a sociabilidade, da donde vai derivar diferentes relacionamentos e diferentes relações vinculares.

É evidente que a família assim como pode ser a base para um indivíduo seguro emocionalmente pode ser o berço de grandes frustrações e inseguranças. No entanto acredita-se ainda, que é trabalhando com os indivíduos no seu núcleo familiar que se podem obter resultados positivos que venham interferir na sociedade.

O papel do educador esta ligado às mudanças que poderá provocar na história do educando e sua família a partir da possibilidade da formação de novos e diferentes vínculos afetivos. É importante que o educador tenha a dimensão desse vínculo que estabelece e do limite desse seu papel.

BIBLIOGRAFIA

BOWLBY, John – Cuidados Maternos e saúde Mental – Livraria Martins – Fontes Editora Ltda, 1988 – São Paulo

Formação e Rompimento dos Laços Afetivos – Livraria Martins Fontes Ltda, 1982 – São Paulo

WINNICOTT, D.W – Tudo Começa em Casa – Livraria Martins Fontes Ltda, 1989 – São Paulo

Privação e Delinqüência – Livraria Martins Fontes Ltda, 1987 – São Paulo

A Família e o Desenvolvimento do Bebê – Interlivros, 1980 – São Paulo

MINUCHIN, S e NICHOLS, Michael P. – A Cura da Família – Editora Artes Médicas,. 1995 – Rio Grande do Sul

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